Lições tecnoestruturais e econômicas da pandemia

Por Elias Sfeir
Presidente Executivo-ANBC e Conselheiro Certificado-Promovendo a Disciplina de Crédito e Governança Corporativa-Brasil

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Para encerrar este ano, eu programei dois artigos que abordam os ensinamentos deixados pela pandemia. No primeiro, eu enfatizei as lições relacionadas principalmente aos aspectos psicossociais. Neste, eu me concentro mais nos aspectos tecnoestruturais e econômicos decorrentes da crise, lembrando que uma lição importante a se aprender é que o convívio entre as pessoas envolve consequências econômicas. A economia depende da interação social.

Da mesma forma, sem entender o psicossocial, é difícil entender os aspectos tecnoestruturais. Para falar sobre a pandemia e suas consequências, as pessoas tendem a abordar direto os aspectos tecnoestruturais. Mas qual o pano de fundo disso? O que mudou no comportamento humano que causou isso? É fruto do comportamento civilizatório no momento. Considerando esse pano de fundo talvez dê para endereçar a parte tecnoestrutural.

tecnoestruturais

 

1.O foco nas ações sanitárias

O mundo descobriu que a situação sanitária é pré-requisito para o enfrentamento e prevenção de situações de saúde a nível local e internacional. Os hábitos sanitários seguirão seu curso em 2021 e quiçá se incorporem em nossos comportamentos. Ao mesmo tempo, a pandemia mostrou a fragilidade do sistema de saúde dos países e enviou uma mensagem clara aos governantes sobre a necessidade de ajustes para proporcionar à população uma assistência digna e eficiente.

2. O trabalho remoto

Dada a necessidade de distanciamento social, o efeito home office se potencializou, garantindo que a atividade econômica tivesse uma ruptura mais suave. A migração foi quase instantânea, o que garantiu a continuidade no fluxo de atividades.

3. Abertura para repactuação

No crédito,entendeu-se que era muito melhor repactuar do que quebrar o relacionamento, o que teria consequências sobre o tecnoestrutural. O fluxo financeiro pode ter sido postergado, mas o fluxo econômico se manteve. As pessoas continuaram atuando, repactuaram para ganhar tempo. E as ações da iniciativa privada, tanto no crédito quanto na cobrança, foram determinantes. Além disso, adotou-se uma política de repactuação com uma avaliação muito mais precisa do que em situações passadas, em que a incerteza inibiu o crédito. No Brasil, o Cadastro Positivo foi fundamental nesse processo, para que as avaliações do momento fossem ponderadas dado o histórico de informações. Com isso, manteve-se o fluxo do processo de crédito. Nesse processo, as informações e a capacidade analítica também aumentaram bastante, o que ajudou a avaliar a previsibilidade do impacto do fenômeno na capacidade de pagamento dos créditos tomados.

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4. Atuação Governamental

Diante do risco de quebra do fluxo econômico e do risco ao bem-estar social, os governos tiveram uma atuação muito forte de implementar programas para mitigar os efeitos da pandemia, ao contrário do que se viu em outras ocasiões. Em todo o mundo, houve um consenso de que o Estado deveria prover mecanismos para garantir um fluxo de receita mínima, tanto para pessoa física quanto jurídica.

Uma vez que esse fluxo de receita foi afetado pelo comportamento de consumo, alguns instrumentos foram colocados em prática:

●      Ajuda assistencial para garantir a renda das famílias e estimular o consumo.

●      Iniciativa do governo de postergar o pagamento de impostos. Como algumas pessoas físicas e jurídicas tinham problemas de receita, o Estado decidiu postergar os pagamentos para evitar comprometer as pessoas com quebra de receita.

●      Créditos subsidiados para micro, pequenas e médias empresas. Foram créditos diretos e indiretos, como auxílio na manutenção dos empregos e garantia de fonte de receita para incentivar a economia via consumo. Com isso, o governo também arrecadou em impostos associados.

Essas medidas foram tomadas em cada país olhando seu espaço fiscal. Algumas foram conservadoras, e outras, mais agressivas. O Brasil foi um dos mais agressivos, o que elevou o déficit público de 75%, para próximo dos 100%. O governo também adotou o quantitative easing, política monetária que aumenta a oferta de moeda em uma economia. Proporcionando mais liquidez aos agentes financeiros e reduzindo as necessidades de depósitos compulsórios, incentivou os agentes de crédito privado a ampliar a disponibilidade de recursos para crédito. Bancos centrais também reduziram as taxas interbancárias propiciando juros mais baixos, incentivos às bolsas e suavizando o serviço da dívida fiscal.

5. O repensar da globalização

A falta de um fluxo transparente de informações e de uma coordenação central das ações de enfrentamento da pandemia, que ocorreu em muitos países, gerou incertezas com relação a uma série de diretrizes socioeconômicas, como a globalização. Os países concluíram que se deve fugir de confiar somente na produção externa, e que cada um precisa ter capacidade local, principalmente em atividades fundamentais. Paralelamente, instalou-se uma crise nos organismos globais, pois faltou-lhes eficiência e preparo para enfrentar a situação criada pela pandemia.

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A aposta na China como provedora abalou o processo de globalização. Constatou-se que é preciso evitar de se colocar serviço essencial em país ou região de risco ou em um só local. País que tem um grande problema sanitário é um risco, e os países estão repensando a estratégia para diversificar. Tem país pensando em dividir a produção entre a China e outro lugar, e país querendo assumir uma parte localmente e o resto em outra região, entre outras alternativas. O Japão, por exemplo, está movendo parte de sua produção na China para outros lugares e até para dentro do seu território.

A pandemia mostrou que os serviços essenciais precisam de segurança, qualidade e garantia de entrega, e que a estratégia de otimização de custos coloca em risco a necessidade de prover o produto ou serviço.

6. As saídas de cada atividade

Muitas empresas também buscam saídas para a questão da otimização de custos em eventual detrimento da necessidade de prover produtos e serviços com segurança, qualidade e garantia de entrega.

Alguns setores se reinventaram como entretenimento que migrou para streaming assim como alimentação e varejo se alavancaram em delivery. Outro avanço ocorreu na medicina, que se aprimorou, adotou a versão remota e garantiu o atendimento às necessidades com segurança.

7. O perfil da retomada

Já se debate intensamente a modelagem da retomada. Está claro que cada segmento terá uma velocidade e um formato distinto, dado o comportamento das pessoas e as medidas de enfrentamento. Muitos negócios que se digitalizaram acabaram beneficiando setores, principalmente os que atenderam às necessidades psicossociais, quer na comunicação ou na tecnologia.

8. A conscientização da humanidade na natureza.

A pandemia também alertou a civilização para o chamado ESG, do inglês Environmental, Social and Governance. A crise de saúde e seus porquês acabaram acentuando a proposição de ESG no sentido de maior investimento em meio ambiente e sustentabilidade, maior cuidado com a governança e atuação social. Muitas empresas passaram a adotar mais firmemente esses conceitos para preservar sua base agora, mas já de olho no futuro.

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9. A tecnologia e seu papel inovador

A tecnologia se apresentou como um grande instrumento de inovação durante a pandemia.

As plataformas de pagamento instantâneo aceleraram sua implantação, a alfabetização tecnológica se acelerou devido a necessidade de interações remotas. No Brasil, essa consciência também ficou evidente. O PIX, por exemplo, foi uma iniciativa acertada que acelerou a digitalização dos serviços e que vai beneficiar o consumo e o crédito, inclusive para investimento.

A Inteligência Artificial deu sua contribuição via otimização de processos e simulações no desenvolvimento de vacinas que normalmente têm um ciclo de cerca de 10 anos, mas que em apenas nove meses já são alternativas sendo avaliadas. Paralelamente, outra lição que a pandemia deixa para a sociedade é a necessidade de verificar as informações e se precaver contra ataques cibernéticos, principalmente em relação a seus ativos, devido ao acelerado processo de digitalização das atividades.

10. A certeza da Incerteza

Ainda é cedo para avaliar todas as consequências e, principalmente, todas as mudanças que uma crise dessas proporções deixa como legado. Mas é certo que teremos incertezas no horizonte, e que as incertezas devem ser trabalhadas por meio de pronta e transparente comunicação e de ações coordenadas nos diversos níveis, na cidade, no país e no mundo.

Mas, como se pode constatar pelas mudanças relacionadas nestes dois últimos artigos do ano, o mundo e a humanidade serão outros. Esperemos que as lições da pandemia sejam uma herança positiva. Esse seria um bom começo para 2021.

Boas Festas a todos, e que 2021 seja um ano de retomada de nossas atividades em plenitude social.

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