ESG: impacto no mercado de crédito

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A avaliação de indicadores econômico-financeiros é requisito básico da análise de investimento e do crédito corporativo. Sem desconsiderar a importância desses números, o fenômeno ESG tem trazido métricas complementares para o centro da análise, possibilitando o controle dos riscos de longo prazo e uma visão globalizante.

Essa sigla provavelmente atravessou sua timeline” nos últimos meses. Ela designa um conjunto de critérios ambientais, sociais e de governança corporativa usados na avaliação de empresas e ativos. Funciona como um selo de qualidade, distinguindo a adoção de boas práticas em cada uma dessas esferas.

O termo ESG surgiu em 2004 como fruto do diálogo entre organismos internacionais e instituições financeiras. Um marco foi a definição de 17 iniciativas da ONU para desenvolvimento sustentável que tem norteado esse movimento

Na dimensão ambiental, as boas práticas devem observar a emissão de carbono, a poluição e o desmatamento, entre outros temas sensíveis. Em relação ao aspecto social, ganham evidência a atenção dada à diversidade na formação das equipes, a segurança de dados, o relacionamento com a comunidade em que o negócio se desenvolve e o respeito aos direitos humanos. Por sua vez, na dimensão da governança, destacam-se os mecanismos de controles internos, a composição e independência do conselho e o comprometimento ético.

O desenho das métricas ESG acaba sendo um processo descentralizado, definido pelo gestor de investimento ou comitê de avaliação de crédito, mas os critérios estabelecidos em tratados internacionais são cada vez mais considerados. Um exemplo é o Acordo de Paris, firmado em 2016 com o objetivo de limitar a elevação da temperatura do planeta. Na visão da Global Sustainable Investment Alliance (GSIA), mesmo sendo um tratado entre países, é crescente o número de investidores que buscam alinhar seus portfólios aos propósitos do acordo.

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O conceito ESG serve à imagem da empresa, mas vai muito além disso. Ele abre as portas do acesso a recursos financeiros, seja via mercado de capitais, seja por meio do mercado de crédito. Dados da “Global Sustainable Investment Alliance” mostram que, no início de 2020, o estoque total de investimentos ESG alcançou US$ 35 trilhões nos mercados da Europa, EUA, Canadá, Austrália e Japão. De acordo com o documento, essa cifra já representa 36% dos ativos sob a gestão de fundos.

Na economia, os incentivos importam. A tendência ESG poderá promover, de um lado, o redirecionamento dos recursos financeiros a empresas alinhadas com os grandes temas do século XXI. De outro, induzir mudança no comportamento das empresas que demandam recursos, buscando essa vantagem competitiva por meio de uma operação sustentável.

No Brasil, a popularização desse termo é recente. Os números do Google Trends mostram um expressivo crescimento da procura por “ESG” ao longo de 2020. Pode-se dizer que, no último ano, a sigla finalmente se impôs no vocabulário corporativo brasileiro, embora já aparecesse antes.

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A Pesquisa de Sustentabilidade 2018, realizada pela ANBIMA, mostrou que 11% dos gestores de recursos respondentes indicaram ter uma área específica de ESG. Além desses, 23% disseram ter comitês ou funcionários diretamente envolvidos com o tema, mesmo sem uma área específica. Apesar dos baixos percentuais então observados, 48,5% responderam que a empresa possuía algum documento sobre políticas de investimentos responsáveis.

Para além dos benefícios de imagem e do acesso a recursos, seria difícil imaginar o sucesso dessa estratégia se a adoção das melhores práticas comprometesse a rentabilidade dos negócios. Nesse caso, o fluxo de recursos para as empresas aderentes à estratégia ESG tenderia a cessar.

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A maior parte das evidências empíricas mostra que as práticas ESG estão relacionadas com melhores resultados a longo prazo, garantindo o retorno para investidores e reduzindo o risco de crédito. A lógica é que o compromisso com os critérios ambientais, sociais e de governança evita que as empresas sofram danos à reputação e riscos de longo prazo, resultando em perdas para o negócio.

O impacto ESG no mercado de capitais já é uma realidade e inicia sua participação no mercado financeiro. Aos esforços dos entes privados, somam-se as medidas de órgãos do setor público. Em setembro de 2020, o Banco Central incluiu na Agenda BC# o pilar da sustentabilidade, com o objetivo de buscar um melhor gerenciamento de riscos socioambientais e climáticos no sistema financeiro nacional. Uma das iniciativas desse pilar é o Bureau Verde do crédito rural, para identificar todas as áreas produtivas beneficiadas por essa modalidade de crédito, além da criação de uma nota para aderência dos produtores rurais aos critérios de sustentabilidade.

Com atuação chave na avaliação do crédito, os birôs de crédito têm consciência do impacto social da sua atividade. Mais do que abastecer o mercado com informações para a tomada de decisão, o setor promove a renegociação de dívidas e fomenta a educação financeira por meio de diversas iniciativas.

Também merece destaque a participação ativa do setor na discussão sobre matérias legislativas, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além do apoio e investimento na implementação do Cadastro Positivo.

O setor de birôs de crédito entende que os critérios ESG ganham espaço na avaliação do crédito, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e inclusivo, promovendo a democratização do crédito, oxigenando a economia e trazendo bem-estar social.

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