Dados do Banco Central mostram que o saldo de crédito com recursos direcionados chegou a R$ 3,08 trilhões em fevereiro de 2026, o que representa 43,1% do saldo total de crédito. Esse saldo resulta da soma dos valores em aberto, a vencer ou vencidos, das operações de empréstimos e financiamentos feitos por meio do Sistema Financeiro Nacional (SFN). O detalhamento dos dados por segmento revela que R$ 1,07 trilhão foi destinado a empresas e 2,01 trilhões às famílias.
Colocando esses dados em perspectiva, observa-se que, ao longo dos últimos 12 meses, o crédito direcionado cresceu 12,2%, acima da observada no segmento de crédito livre (7,7%), de acordo com dados do Banco Central. Para 2026, as projeções indicam que os saldo dos recursos direcionados deverá crescer 10,2%, ante um avanço de 8,1% no saldo de crédito com recursos livres.
Em uma explicação resumida, no Sistema Financeiro Nacional, as modalidades de crédito são classificadas como “direcionadas” ou “livres”. Entende-se por crédito direcionado o conjunto das operações de empréstimos e financiamento regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e destinadas ao financiamento de setores específicos, como o rural, imobiliário e de infraestrutura. Os recursos usados nessas operações são provenientes de depósitos à vista, caderneta de poupança e do orçamento públicos. No chamado crédito livre, os recursos são captados via mercado, sem destinação específica e com fees e condições pactuadas entre a instituição financeira e o tomador de recursos.
Quais são, afinal, as principais modalidades direcionadas no país? No segmento de crédito às pessoas físicas, destacam-se o crédito imobiliário, o crédito rural, o crédito com recursos do BNDES e o microcrédito. Já no segmento de crédito às pessoas jurídicas, as principais modalidades são o crédito com recursos do BNDES, o crédito rural e os financiamentos imobiliários.
Vale esclarecer que nem todo o crédito direcionado tem taxas de juros subsidiadas. Parte desses recursos é captada com taxas pactuadas entre a instituição financeira e o demandante. Ainda assim, existe regulamentação que distingue essa modalidade do crédito livre.
Nos países desenvolvidos, o financiamento de longo prazo tende a ser feito via mercado de capitais, por meio da emissão de títulos de dívidas que reduzem o custo do financiamento. No Brasil, com um mercado de capitais ainda em expansão, o direcionamento de recursos é responsável por viabilizar boa parte do financiamento de longo prazo. Isso porque os projetos de longa maturação implicam maior risco, sendo menos atrativos do ponto de vista do mercado.
O debate sobre o direcionamento de recursos no país é longo. Argumenta-se, favoravelmente a essas modalidades, que o crédito direcionado possibilita o desenvolvimento de setores estratégicos e suaviza o impacto de choques recessivos sobre a economia. Por outro lado, direcionamento desmedido do crédito produz um efeito chamado de “meia-entrada” no mercado. A lógica é que o custo de subsidiar uma fatia do crédito direcionado acaba sendo compartilhado com os demais tomadores. São comuns também os questionamentos sobre a capacidade de retorno dos projetos de investimentos que usam recursos direcionados.
Para que o crédito direcionado tenha mais oportunidade de sucesso se faz necessário:
1. Foco cirúrgico: Focalizar onde há falha de mercado real e definir prazo de saída
2. Boa infraestrutura de dados: Investir primeiro em infraestrutura de crédito, não apenas em juros baixos
3. Compartilhamento de risco com o mercado: Preferir compartilhamento de risco a subsídio generalizado
4. Assistência técnica: Combinar crédito com assistência técnica e integração produtiva
5. Avaliação rigorosa de resultados: Medir impactos econômico e social e proteger o tomador desde o início
Como toda política pública, o impacto do crédito direcionado precisa ser avaliado com base em dados. Em abril de 2026, O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) lançaram o Observatório de Crédito Direcionado. O Observatório reunirá em uma plataforma dados e evidência sobre o uso dos recursos direcionados e os efeitos sobre a economia. A mensuração rigorosa de impacto deve nortear a definição do tamanho ideal de direcionamento de recursos e estabelecer quais são os direcionamentos mais eficientes do ponto de vista da sociedade.
O setor dos birôs vem acompanhando de perto as transformações no mercado de crédito e o ciclo recente de expansão da inclusão financeira. No crédito direcionado participa proporcionando inteligência a partir dos dados, provendo soluções para avaliação de crédito assim como prevenção de fraudes. O custo do crédito ainda é visto como um limitador da atividade, sobretudo no segmento do crédito livre. Espera-se que a maior disponibilidade de informações para a análise de crédito e as mudanças introduzidas pelo novo marco das garantias possam contribuir para a redução desse custo, fortalecendo crédito livre e garantindo um direcionamento mais focalizado e eficiente.
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