A economia e crédito pós-Covid-19

Por Elias Sfeir
Presidente Executivo-ANBC e Conselheiro Certificado-Promovendo a Disciplina de Crédito e Governança Corporativa-Brasil

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Uma das características da pandemia causada pelo novo coronavírus, que é estar em momentos diferentes em cada país, dificulta o exercício de pensar globalmente como e em que ritmo as economias irão reagir pós-Covid-19. Alguns países estão em plena quarentena, enquanto outros já começam a voltar às atividades. Por essa particularidade e também pela imprevisibilidade da propagação, a experiência de outras crises ou pandemias globais não pode ser aplicada ao cenário atual.

Economia E Crédito

Como em outros momentos de instabilidade, o PIB já caiu muito e ainda vai cair mais, a média de salários diminuiu e levará tempo para se recuperar, assim como o nível de emprego, o ritmo de produção e dos serviços. A recuperação virá, mas não se sabe em que velocidade e formato, uma vez que dependerá do grau de interferência sobre a oferta de mão de obra, a remuneração do capital, a expansão das atividades e o fluxo do crédito.

Essa é a grande questão colocada para os governos e a sociedade: se a recuperação será em curva modelo V, que se refere a uma queda abrupta seguida de uma volta rápida, ainda em 2021; se prevalecerá o modo U, de queda veloz e recuperação mais lenta; se a curva será em W, com uma queda forte, uma subida leve seguida de outra queda para só então iniciar a retomada – situação previsível na hipótese de segunda onda pandêmica; ou se, no pior cenário, a recuperação será em L, que é a queda vertiginosa seguida de estabilidade a um ritmo muito menor e perspectiva de recuperação somente no longo prazo.

De modo a prover liquidez, os governos têm colocado recursos a juros baixos e com garantias oferecendo carências para ter condições de crédito com juros baixos e um longo período de pagamentos.

Estudo analisando 15 pandemias que mataram mais de 100 mil pessoas cada, desde o século XIV, mostra que existe tendência de baixa na taxa de juros por longos períodos. A tese é que o declínio da taxa de retorno foi causado pela falta de oportunidades de investimento devido ao excesso de capital por unidade de mão de obra e que a insegurança estimulou a poupança. A pandemia é diferente das guerras que destroem capital.

Hoje vivemos um contexto diferente. As economias são globalizadas, as bolsas de valores oferecem oportunidades de investimentos também globais, sistemas tecnológicos e dados proporcionam mais transparência e melhor inteligência na tomada de decisão. Vide as oscilações nas bolsas de valores sinalizando a retomada da confiança nas medidas tomadas pelos governos. Nos empréstimos como um todo, a manutenção das informações dos sistemas de avaliação de crédito é fundamental para evitar a incerteza que restringe e aumenta a taxa de juros.

Esses fatores levam à retomada mais rápida da economia e ao retorno dos valores das taxas de juros ao patamar anterior à pandemia muito mais rápido. Outros acreditam que, para garantir que uma dívida pública mais alta não inflacione o rendimento dos títulos, os bancos centrais deverão exercer forte controle sobre os juros.

E como a tendência é que a participação da dívida no PIB aumente muito após a pandemia, a política monetária será fundamental para ajudar os governos a lidar com a dívida de modo a evitar a inadimplência ou austeridade recessiva. Em resumo, embora a crise humanitária e de saúde da Covid-19 acabe passando, os investidores devem se preparar para um mundo com taxas de juros reais ainda mais baixas por um certo tempo.

A julgar pelo exemplo da China, que já começou a abrandar o isolamento social, reabrir fábricas e recuperar uma parcela da capacidade produtiva, as perspectivas da economia pós-Covid-19 não são das mais pessimistas. Da mesma forma, a rapidez com que os bancos centrais das principais economias estão agindo para dar liquidez ao mercado aponta, em princípio, para uma recuperação entre as curvas V e U, as mais benignas. A tendência é um retorno em U porque cada geografia tem um modelo de retomada, e porque os setores econômicos retomam em velocidades diferentes. Transporte, por exemplo, retorna mais rápido, e restaurante em ritmo mais lento, esperando-se um restabelecimento lento da cadeia de suprimento global.

Mas há muitos perigos que podem atravessar o caminho da retomada, que depende de fatores externos à economia, como a forma como o vírus vai continuar se desenvolvendo e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde. E o maior perigo é o risco de rebotes de contágio, que podem levar a períodos intermitentes de isolamento e a novas quebras na atividade econômica.

Além disso, cada país percorrerá um caminho de recuperação decorrente de fatores internos e externos. Os países da América Latina, por exemplo, dependem em grande parte da velocidade de recuperação das economias mais importantes, como China, Estados Unidos e União Europeia. E também de como cada país latino-americano conseguirá gerenciar seus problemas de modo a estimular a atividade econômica e evitar uma crise financeira, depois de anos seguidos de baixo crescimento, como é o caso do Brasil.

Da mesma forma que abalou os planos de política econômica dos governos, a pandemia do novo coronavírus derrubou o planejamento das empresas. E, a exemplo das autoridades responsáveis pelos governos, os empresários precisam repensar sua atividade à luz desse novo normal, que potencializou a importância de hábitos corriqueiros de higiene, mostrou a relevância do investimento em saúde pública, mudou a forma de trabalho, revolucionou as relações de consumo e entronizou o virtual.

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