Fonte: https://cantarinobrasileiro.com.br
Por Elias Sfeir – Presidente da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC)
Os pagamentos instantâneos, antes limitados ao ambiente doméstico, têm avançado para o cenário internacional transfronteiriço, conectando pessoas, empresas e sistemas financeiros em tempo real. Essa transformação, no entanto, exige mais do que tecnologia, requer confiança. E é aí que os birôs de crédito entram como protagonistas.
Em painel realizado no Fórum Payment Anyway, falei rapidamente como os birôs de crédito podem atuar como provedores de confiança em um ecossistema de pagamentos instantâneos cross-border. A interoperabilidade entre sistemas financeiros de diferentes países depende de estruturas robustas de verificação de identidade (KYC – know your customer), prevenção à lavagem de dinheiro (AML – Anti-Money Laundering) e avaliação de risco. Os birôs têm capacidade de fornecer dados confiáveis para validar identidades, compartilhar históricos de crédito entre jurisdições e aplicar inteligência artificial para decisões em tempo real, mesmo em ambientes com pouca informação histórica.
Participando de eventos globais tenho visto casos internacionais que são exemplos de como essa integração é possível, desde que as partes estejam alinhadas nos países envolvidos. A Ásia se destaca à frente em várias iniciativas.
Singapura e Tailândia conectaram seus sistemas de pagamentos instantâneos (PayNow e PromptPay), permitindo transferências internacionais em tempo real usando apenas o número de telefone como identificador.
Essa experiência foi a primeira do tipo no mundo, em 2021, e representou um marco na evolução dos pagamentos transfronteiriços. O projeto exigiu uma coordenação complexa entre os bancos centrais dos dois países, envolvendo padrões de mensagens, mecanismos de liquidação e conformidade regulatória.
A experiência dessa iniciativa mostra como é possível estender a conveniência dos pagamentos domésticos para o ambiente internacional, com custos reduzidos, maior velocidade e simplicidade para o usuário final. Em 2022 registraram mais de 65 mil transações mensais e redução do tempo de liquidação de dias para minutos.
Outro exemplo aconteceu em março de 2023, os birôs de crédito de Camboja (CBC) e Singapura (CBS) lançaram a primeira iniciativa de compartilhamento transfronteiriço de dados de crédito entre os dois países. A proposta surgiu como resposta à crescente mobilidade da força de trabalho global e à necessidade de garantir legitimidade e segurança na troca de informações financeiras. Com o consentimento do consumidor, instituições financeiras e empregadores podem solicitar relatórios de crédito para avaliar a concessão de crédito, especialmente em casos de profissionais que migraram entre os países. A iniciativa foi celebrada por autoridades dos bancos centrais e líderes do setor financeiro como um marco para a inclusão financeira e a construção de um ecossistema de crédito mais robusto e confiável, com potencial de expansão para outros países da ASEAN.
Além desses, há outros casos na Ásia como a troca de informações creditícias entre Coreia do Sul e Filipinas. Com esse sistema, a Coreia do Sul permite que mais de 70.000 filipinos residentes utilizem seu histórico de crédito do país de origem para acessar financiamento local.
Nota-se que a Coreia do Sul e Camboja estão na vanguarda, se integrando com vários outros países. Em abril de 2025, bancos e birôs desses dois países, utilizaram inteligência artificial e machine learning para gerar relatórios de crédito em tempo real, promovendo inclusão financeira e transparência, além de melhorar a gestão de risco das instituições financeiras. Essa iniciativa bilateral permite que mais de 50 mil cambojanos vivendo na Coreia do Sul e 10 mil coreanos residentes no Camboja tenham acesso facilitado ao crédito, com base em seus históricos financeiros reais. Em 2024, o comércio bilateral Camboja-Coreia atingiu US$ 762 milhões, um aumento de mais de 11% em relação a 2023.
A evolução é mais do que tecnológica, tem impacto direto na vida das pessoas. Embora os ganhos sejam significativos, é preciso investir em governança, capacitação, interoperabilidade e supervisão, para que a inovação seja perene, inclusiva e traga confiança.
A inovação deve ser mais rápida que a regulação e a confiança é o ajuste do avanço da inovação.
Para que esse impacto seja sustentável, é essencial investir em infraestrutura digital, educação financeira e mecanismos de confiança, para os quaiso compliance é fundamental. Os birôs de crédito têm um papel estratégico nesse processo, atuando como pontes entre sistemas, países e pessoas.
E os pagamentos instantâneos internacionais, especialmente os avanços transfronteiriços, são uma oportunidade concreta de tornar o crédito mais acessível, justo e eficiente, dentro e fora do sistema financeiro tradicional.
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