inadimplência recorde

Inadimplência recorde e incerteza global elevam o risco do crédito no Brasil em 2026

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Caminhamos para a metade de 2026. O momento é oportuno para revisitar o cenário macroeconômico projetado no início do ano e avaliar os principais fatores que vêm influenciando o mercado de crédito. Desde janeiro, um dos acontecimentos mais relevantes para a economia global foi o acirramento dos conflitos geopolíticos. O surgimento de novos focos de tensão no Oriente Médio elevou a volatilidade dos mercados internacionais e pressionou os preços de commodities estratégicas, especialmente energia e alimentos.

O impacto desse cenário já começa a ser incorporado às expectativas econômicas. Na economia americana, a variação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) alcançou 4,2% no acumulado de 12 meses encerrados em maio de 2026. No Brasil, as projeções para a inflação também foram revisadas para cima. Segundo o Boletim Focus do Banco Central (https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus), o IPCA deverá encerrar o ano com alta de 5,11%, acima da expectativa observada no início do ano.

Refletindo o aumento das tensões internacionais, o Fundo Monetário Internacional – FMI (https://www.imf.org) revisou suas projeções para a economia global. A estimativa de inflação para 2026 foi elevada, enquanto as projeções de crescimento econômico foram reduzidas. Na mesma direção, o relatório mais recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE (https://www.oecd.org) adota um tom mais cauteloso, destacando que a persistência dos conflitos poderá gerar impactos prolongados sobre a confiança dos agentes econômicos, os preços da energia e a inflação global.

A combinação de menor crescimento econômico, inflação mais resistente e maior volatilidade dos mercados tende a elevar a percepção de risco dos agentes econômicos, afetando diretamente o custo e a disponibilidade de crédito. Em momentos como este, instituições financeiras e empresas passam a adotar critérios mais rigorosos na concessão de recursos, aumentando a importância de instrumentos capazes de melhorar a avaliação do risco e reduzir assimetrias de informação. Nesse ambiente de elevada incerteza, torna-se fundamental acompanhar atentamente a evolução dos indicadores econômicos, do mercado de crédito e da capacidade de pagamento de consumidores e empresas.

No quadro do consumidor, dados coletados pelo setor dos birôs de crédito mostram que o número de consumidores negativados permanece em patamar historicamente elevado, já superando metade da população adulta brasileira. Esse quadro reflete a combinação de inflação persistente, perda de poder de compra e maior pressão sobre o orçamento das famílias, fatores que continuam limitando a capacidade de pagamento e ampliando a demanda por renegociação de dívidas.

Nesse cenário, a recuperação de crédito assume papel estratégico além da redução da inadimplência impactando também para a preservação da inclusão financeira. O avanço das ferramentas analíticas, da inteligência artificial e das informações positivas permite que credores adotem abordagens mais precisas e individualizadas, diferenciando situações temporárias de dificuldade financeira de casos de maior risco. A combinação entre monitoramento contínuo, renegociação justa e educação financeira contribui para aumentar as taxas de recuperação, reduzir perdas e fortalecer a relação de confiança entre consumidores, empresas e instituições financeiras.

Diante desse cenário mais adverso, permanece a tendência de desaceleração do ritmo de crescimento das operações de empréstimos e financiamentos privados. Depois de anos de forte expansão, o mercado de crédito continua crescendo, porém em velocidade menor. De acordo com projeções coletadas pela FEBRABAN (https://portal.febraban.org.br), a carteira de crédito deverá avançar em ritmo inferior ao observado nos anos anteriores, refletindo um ambiente de maior cautela tanto por parte dos credores quanto dos tomadores de recursos.

Do lado dos ofertantes de crédito, o cenário exige reforço dos instrumentos de análise mais precisos, monitoramento contínuo e recuperação com estratégia, de modo a mitigar riscos de inadimplência e preservar a qualidade das carteiras. Do lado dos consumidores, torna-se cada vez mais importante realizar um diagnóstico da vida financeira, identificar eventuais desequilíbrios e buscar soluções preventivas, incluindo renegociação de dívidas e reorganização do orçamento familiar.

Em um ambiente de maior seletividade nas concessões, ganham relevância as informações positivas, os modelos analíticos avançados, a inteligência artificial e os mecanismos de monitoramento contínuo do risco. Ferramentas como o Cadastro Positivo contribuem para reduzir assimetrias de informação, melhorar a avaliação da capacidade de pagamento e ampliar o acesso sustentável ao crédito para consumidores e empresas. Quanto maior a qualidade e a abrangência das informações relevantes para análise de crédito disponíveis, mais eficiente tende a ser a alocação de recursos no sistema financeiro.

No caso brasileiro, além das incertezas globais, o mercado acompanha com atenção o início do novo ciclo eleitoral, que tradicionalmente amplia a sensibilidade dos agentes econômicos às perspectivas fiscal, regulatória e institucional. Soma-se a isso o risco associado a eventos climáticos relacionados ao El Niño e outras anomalias meteorológicas, capazes de afetar significativamente a produtividade agropecuária e o desempenho do agronegócio.

Os dados recentes do crédito rural já sinalizam um ambiente mais desafiador. Ao final de 2025, o mercado registrou redução no volume de contratos e queda no ticket médio das operações. O aspecto mais preocupante para 2026 é a mudança na composição do endividamento do setor, com aumento relativo das operações de prazo mais longo e redução das operações voltadas ao custeio da produção. Essa estrutura financeira mais alongada, combinada com o aumento da inadimplência e dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio, reforça a necessidade de prudência na condução das políticas econômicas e na gestão do risco de crédito.

Em suma, o conjunto dos indicadores aponta para um ambiente de maior complexidade para o crédito em 2026. A combinação de inflação resistente, incertezas geopolíticas, desaceleração econômica e elevado nível de endividamento das famílias e empresas exige cautela tanto dos formuladores de políticas públicas quanto dos agentes do mercado.

A qualidade da informação, a educação financeira, a gestão responsável do risco e o uso adequado da tecnologia serão cada vez mais importantes para preservar a estabilidade do sistema financeiro, ampliar a inclusão creditícia e fortalecer a confiança entre consumidores, empresas e instituições financeiras.

O setor dos birôs de crédito continuará monitorando atentamente os indicadores de inadimplência, endividamento e concessão de crédito, fornecendo informações que contribuam para decisões mais seguras, para o fortalecimento da confiança e para o desenvolvimento sustentável do mercado de crédito brasileiro.

 

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elias sfeir

 

Por: Elias Sfeir Presidente da ANBC & Membro do Conselho Climático da Cidade de São Paulo & Conselheiro Certificado

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