Fonte: https://cantarinobrasileiro.com.br
Por Elias Sfeir – Presidente da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC)
A revolução da inteligência artificial (IA) está transformando o setor financeiro global e o Brasil faz parte desse movimento. Segundo estudo do Boston Consulting Group (BCG), a adoção estratégica e em larga escala de IA pode elevar a produtividade dos bancos entre 35% e 50%, com impactos significativos em áreas como atendimento ao cliente, gestão de riscos, operações internas e tecnologia.
O Brasil desponta como um dos países mais receptivos à revolução digital no setor bancário. Matéria recente do Valor Econômico destaca que, embora os ganhos de produtividade com digitalização tenham sido modestos até agora o potencial de crescimento é enorme. Entre 2018 e 2023, o Brasil teve um ganho anual de 3,5% na métrica de ativos por empregado, desempenho superior ao de países como Canadá, Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Índia, mas ainda abaixo de mercados como Arábia Saudita, China e Indonésia.
O estudo do BCG aponta que o país está entre os mercados onde fintechs e bancos digitais, como o Nubank, conquistaram escala e reconhecimento institucional, sendo tratados como grandes bancos por reguladores e consumidores. Essa trajetória reflete uma tendência global: em países como Reino Unido, Polônia e Coreia do Sul, os chamados “digital attackers” estão ganhando espaço e valor de mercado, desafiando os bancos tradicionais por apresentarem modelos mais ágeis e centrados no cliente.
Um exemplo emblemático da inovação brasileira, o Pix, sistema de pagamentos instantâneos, movimentou US$ 5 trilhões em 2024 em transações primárias, superando o volume global de transações com stablecoins (US$ 4 trilhões) e se aproximando de gigantes como Mastercard (US$ 10 trilhões) e Visa (US$ 13 trilhões). Essa liderança reforça o potencial do país em integrar ativos digitais ao sistema financeiro tradicional, uma fronteira que pode redefinir o crédito e a liquidez no futuro próximo.
O material feito pelo Boston Consulting Group compartilha mais casos globais, dentre os quais:
- Coreia do Sul e Polônia: Digital attackers como neobancos já capturam mais de 60% da base de clientes em alguns mercados.
- Estados Unidos: Bancos que adotaram IA de forma estratégica já alcançam até 5% de melhoria em receita ou redução de custos, com projeções de até 50% de transformação de funções operacionais.
- Europa: Bancos que lideram em depósitos domésticos têm valuations até 3x maiores que seus concorrentes.
IA: De Ferramenta a Estratégia de Negócio
A chave para destravar esse valor está na adoção ousada de IA, combinada com reengenharia de processos e foco em modelos de negócios mais enxutos e especializados.
Exemplos internacionais mostram que bancos com modelos focados, como os especializados em gestão de patrimônio ou crédito, têm desempenho superior aos bancos universais, mesmo com estruturas de custo mais elevadas. Isso se deve à capacidade de gerar receitas recorrentes com produtos de alto valor agregado e menor dependência de margens de juros.
A inteligência artificial tem se tornado parte central da estratégia de negócios. O modelo 10-20-70 do BCG reforça que 70% do sucesso na adoção da IA depende de pessoas e cultura, além da tecnologia. Isso exige uma mudança profunda na forma como os bancos operam, com integração entre áreas, foco em valor e reimaginação de processos.
Oportunidade para o Crédito Inclusivo
A IA pode ser uma aliada poderosa na inclusão financeira de qualidade, tema central da agenda do G20. Com algoritmos mais precisos e éticos, é possível ampliar o acesso ao crédito para populações historicamente excluídas, como microempreendedores e trabalhadores informais, sem comprometer a sustentabilidade do sistema.
A Inteligência Artificial (IA) é uma realidade concreta no setor de crédito há mais de 20 anos, com resultados concretos de como a IA tem transformado processos como atualização de score em tempo real, detecção de fraudes, automação de modelos estatísticos e expansão responsável do crédito. Para quem deseja entender como esses avanços estão sendo aplicados na prática pelos birôs de crédito brasileiros, aumentando inclusão, governança e eficiência, recomendamos a leitura do artigo publicado pela ANBC no LinkedIn: “Inteligência Artificial no Crédito: da promessa à prática”.
O Brasil tem uma oportunidade única de se destacar cada vez mais nessa transformação. O caminho é similar a países como Estados Unidos e China, que partem de uma política de Estado, estratégia, legislação e regulação avançada. A China, por exemplo, tem uma estratégia de letramento em IA na sua grade de ensino em vários níveis. Enquanto aqui temos consumidores ávidos pelo uso de tecnologias digitais e um ecossistema de fintechs vibrante, o que pode tornar o país uma referência global em crédito inteligente e inclusivo.
Para que o Brasil consolide sua posição de liderança é preciso ter talentos corretos nos negócios com inteligência emocional, habilidade de trabalhar em times, flexibilidade, resiliência e pensamento crítico. Outro ponto fundamental é ter programas de formação de profissionais para desenvolver e usar IA. Afinal, mais do que ferramentas técnico estruturais, a transformação que vai permanecer é a que acontece quando são considerados também os fatores psicossociais.
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