reincidência da inadimplência

Como em 2016: crescimento e reincidência da inadimplência

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A última década foi farta de acontecimentos que certamente terão lugar na História. No Brasil, se voltarmos 10 anos no tempo, encontramos um cenário desafiador de crise econômica e agitação política. Entre 2014 e 2016, o país mergulhou em uma recessão severa, que derrubou o PIB por dois anos consecutivos e fez a taxa de desemprego subir para 14% no início de 2017.

Os anos seguintes foram de lenta estabilização, com a retomada do crescimento econômico e queda do desemprego, mas só até o início da pandemia. Em 2020, a trajetória do PIB mudou novamente, desafiando sobretudo o setor de serviços e os trabalhadores informais.

Em 2021, o PIB voltou a cresceu, recompondo parte da perda anterior. Nos anos mais recentes, o ritmo de crescimento da economia brasileira arrefeceu, mas com notável resiliência do mercado de trabalho. No 4º trimestre de 2025, o desemprego desceu à mínima histórica, marcando 5,1%, enquanto a renda média do trabalho avançou.

Ao mesmo tempo, diversas métricas de endividamento continuam mostrando um cenário preocupante para as finanças das famílias. Dados da CNC apontavam, em abril de 2016, que o percentual de famílias endividadas era de 60,3%. No levantamento de abril de 2026, esse percentual subiu para 80,9%. Vale destacar que esse indicador mede compromissos financeiros em dia ou com atrasos.

De acordo com dados dos birôs de crédito, o número de negativados chegou a 83,4 milhões em abril de 2026. No mesmo mês de 2016, esse número era de 59,7 milhões. Em termos percentuais, os negativados representavam cerca de 40% da população adulta em abril de 2016. Neste ano, o percentual chegou a 50,8%.

Analisando o valor médio da dívida, observa-se que, em abril de 2026, cada negativado devia, em média, R$ 6.814. Na comparação com abril de 2026, esse resultado representa um crescimento real – já descontando a inflação – de 13,8% ao longo de 10 anos.

Um estudo mais recente informa algo ainda mais preocupante sobre a persistência dos atrasos: de acordo com o levantamento, quatro em cada dez brasileiros negativados em 2026 estavam na mesma situação em 2016.

Muda o cenário e o quadro de aperto financeiro permanece. O patamar atual da inadimplência poderia ser creditado aos consumidores recém incluídos no sistema financeiro, com pouca experiência no uso de serviços de crédito, já que, ao longo dos últimos anos, a inclusão financeira no país avançou, como mostram os dados do Global Findex, divulgado pelo Banco Mundial. Embora essa hipótese continue válida e mereça ser aprofundada, a inadimplência que persistente entre consumidores com longo histórico de relacionamento financeiro é parte importante do problema, indicando que as dificuldades financeiras tendem a persistir ao longo do tempo, mesmo entre aqueles com ampla experiência no uso do crédito.

No mercado americano, o Departamento do Tesouro divulga uma métrica de reincidência para o mercado imobiliário. O “OCC Mortgage Metrics Report” referente ao 3º trimestre de 2025 mostra que cerca de um quarto das renegociações de financiamentos imobiliários voltaram a registrar atrasos depois de seis meses da renegociação, caracterizando o chamado “re-default”.

Afinal, como lidar com o fenômeno da inadimplência recorrente? Um dos caminhos é a educação financeira, tão falada nos últimos anos. Esse tema ganhou espaço em diferentes mídias, impulsionado por entidades públicas e privadas do país, na esteira do processo de financial deepening. O termo designa a expansão dos mais diversos serviços financeiros, de investimentos a seguros, passando pelas contas bancárias e de pagamento. A diversidade maior de opções requer também maior domínio sobre os diferentes serviços para que os consumidores possam, de fato, ampliar o bem-estar econômico. Conforme apresentado anteriormente no artigo Matriz de Competências de Letramento Financeiro e os Impactos da Disciplina na Vida Adulta, pesquisas conduzidas pelo Banco Central e pelo Banco Mundial demonstraram que estudantes expostos a programas de educação financeira apresentaram, anos depois, menor probabilidade de recorrer a modalidades de crédito mais caras e de ter contas em atraso.

Avanços institucionais também cumprem um papel importante ao dar mais transparência aos serviços financeiros e criar incentivos para boas práticas. A regulação do Bacen disciplina a divulgação transparente dos custos envolvidos nas operações de crédito. No caso do cheque especial, por exemplo, a autorregulação dos bancos determina que linhas de crédito mais baratas sejam ofertadas aos consumidores que utilizam essa modalidade e que as instituições financeiras promovam ações de orientação sobre o uso desse crédito emergencial.

Como forma de ampliar os incentivos a boas práticas financeiras, o Cadastro Positivo permite que consumidores sejam avaliados também com base na pontualidade dos seus pagamentos. A construção de um bom histórico facilita o pleito de melhores condições de crédito. Os avanços recentes no mercado de crédito estão em fase de maturação e já há evidência de impactos positivos para os consumidores. Outro fato importante é que de cada 100 pessoas que saem da negativação, cerca de 85% voltam a ficar negativado em um ano.

O caminho para o desenvolvimento do mercado de crédito no Brasil passa, em suma, pela conscientização sobre o uso responsável e bem-informado das diferentes modalidades. A inadimplência de longo prazo mostra, por fim, que o combate ao endividamento excessivo requer políticas que possam ir além da renegociação pontual, sendo acompanhadas de conteúdos educativos e padrões comportamentais que elevem a consciência sobre o uso do crédito que em muitos casos é mal utilizado sendo incorporado à renda do tomador de crédito e práticas de concessão de crédito responsável.

 

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elias sfeir anbc

 

Por: Elias Sfeir Presidente da ANBC & Membro do Conselho Climático da Cidade de São Paulo & Conselheiro Certificado

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