O “efeito ioiô” da inadimplência: 4 em cada 10 negativados em 2026 vivem em um vai e vem com as dívidas há dez anos, aponta ANBC

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Levantamento dos birôs de crédito mostra que parte da inadimplência deixou de ser um problema passageiro e passou a acompanhar milhões de consumidores ao longo da última década

O Brasil soma hoje 83,4 milhões de consumidores negativados, mas um dado chama atenção nesse universo: quatro em cada dez brasileiros já estavam inadimplentes há dez anos. O levantamento da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), com base em dados dos birôs de crédito, mostra que parte das restrições de crédito atravessa diferentes ciclos da economia e permanece por longos períodos.

Outros indicadores mostram o avanço do endividamento na última década. A participação dos negativados na população adulta passou de cerca de 40%, em abril de 2016, para 50,8%, em abril de 2026. No mesmo período, o percentual de famílias com algum tipo de endividamento evoluiu de 60,3% para 80,9%, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O valor médio das dívidas chegou a R$ 6.814 por consumidor, crescimento real de 13,8% em relação a 2016.

Para o presidente executivo da ANBC, Elias Sfeir, os indicadores mostram que o desafio do crédito no Brasil vai além da renegociação de dívidas e exige iniciativas capazes de reduzir a reincidência. “A inadimplência de longo prazo mostra que o combate ao endividamento excessivo requer políticas que vão além da renegociação pontual. É necessário combinar educação financeira, uso consciente do crédito e práticas de concessão responsáveis, alinhadas à capacidade de pagamento dos consumidores”, afirma.

A evolução desses indicadores acompanhou diferentes momentos da economia brasileira. Entre 2014 e 2016, o país enfrentou uma recessão que provocou retração do Produto Interno Bruto (PIB) e elevou a taxa de desemprego a 14% no início de 2017. Após um período de recuperação, a pandemia alterou novamente o ritmo da atividade econômica. Nos anos seguintes, o mercado de trabalho voltou a apresentar melhora e o desemprego atingiu a mínima histórica de 5,1% no quarto trimestre de 2025. Ainda assim, a inadimplência manteve trajetória de crescimento.

O avanço da inclusão financeira ampliou o acesso dos brasileiros a contas bancárias, meios de pagamento e diferentes modalidades de crédito ao longo da última década. Desde a pandemia, o crédito às pessoas físicas cresceu de forma consistente, aumentando o comprometimento da renda das famílias com dívidas. Para a ANBC, embora esse movimento represente um avanço na inclusão financeira, ele também trouxe milhões de novos consumidores para o mercado de crédito, muitos deles ainda sem experiência na utilização de determinadas modalidades. Somado ao uso recorrente de linhas de crédito de alto custo, como cheque especial e rotativo do cartão de crédito, esse cenário ajuda a explicar por que a inadimplência permanece elevada mesmo diante da melhora dos indicadores de emprego.

Para Elias Sfeir, o fato de quatro em cada dez consumidores negativados em 2026 já estarem nessa condição dez anos antes demonstra que o desafio envolve um grupo que mantém relacionamento de longo prazo com o mercado de crédito. “Os dados revelam que a inadimplência deixou de ser apenas uma dificuldade momentânea para uma parcela importante da população e passou a representar um comportamento recorrente. De cada 100 consumidores que deixam a negativação, cerca de 85 voltam a registrar restrições de crédito em até um ano. Isso reforça que programas de renegociação são importantes, mas produzem resultados mais duradouros quando vêm acompanhados de educação financeira, uso consciente do crédito e práticas de concessão responsáveis, alinhadas à capacidade de pagamento dos consumidores”, complementa.

 

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