Crédito das famílias brasileiras em 2026 exige atenção à sustentabilidade e à qualidade da inclusão financeira, avalia ANBC
Comprometimento da renda e nível elevado de endividamento reforçam a necessidade de decisões financeiras mais conscientes
Após o período do Carnaval, quando a atividade econômica retoma seu ritmo regular, milhões de famílias brasileiras ajustam o planejamento financeiro e o orçamento às despesas típicas do início do ano. Nesse contexto, indicadores recentes mostram que o nível de endividamento segue elevado e que o comprometimento da renda com dívidas permanece relevante, o que traz desafios importantes para a sustentabilidade do crédito ao longo de 2026.
De acordo com a Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), os primeiros meses do ano concentram gastos recorrentes, como IPTU, IPVA, matrícula e despesas escolares, justamente em um momento em que parcela significativa das famílias já carrega compromissos financeiros assumidos anteriormente. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que cerca de 79% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Dentro desse grupo, aproximadamente 30% enfrentam situação de inadimplência.
Na mesma direção, estatísticas do Banco Central do Brasil mostram que, no fim de 2025, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas seguia próximo de 50%. O dado reflete, entre outros fatores, o peso do crédito mais caro e o uso intensivo de modalidades de curto prazo. No mesmo período, o estoque de crédito ampliado às famílias alcançou cerca de R$ 4,8 trilhões, o equivalente a 37,5% do PIB, com expansão de quase 12% em 12 meses, impulsionada principalmente pelos empréstimos do Sistema Financeiro Nacional.
Para Elias Sfeir, presidente executivo da ANBC, o cenário reforça a necessidade de qualificar o debate sobre crédito no país. “Entramos em 2026 com um nível de endividamento que já deve ser tratado além do conjuntural. Quando uma parcela relevante da renda está comprometida com dívidas, o crédito deixa de cumprir plenamente seu papel de planejamento financeiro e passa a exigir maior atenção. O desafio é fortalecer a sustentabilidade do crédito, combinando melhor avaliação de risco, inclusão financeira com qualidade e educação financeira prática, que ajude as famílias a tomar decisões mais conscientes”, afirma.
Segundo a entidade, o acesso ao crédito segue sendo fundamental para o funcionamento da economia, e deve estar sustentado por informação de qualidade, transparência e pelo uso responsável dos instrumentos de crédito disponíveis no mercado. “Inclusão financeira é além do acesso formal ao sistema, e sim a capacidade real de utilizar o crédito de forma equilibrada. O uso qualificado de informações e critérios mais precisos de avaliação de risco contribui para diferenciar perfis de comportamento financeiro, reduzir assimetrias de informação e criar um mercado de crédito mais eficiente, inclusive em períodos de maior pressão sobre a renda”, destaca Sfeir.
A ANBC avalia que o início do ano é um momento estratégico para aprofundar esse debate, quando famílias organizam o orçamento e reavaliam prioridades. Em um ambiente de juros elevados e renda ainda pressionada, avançar em educação financeira aplicada, estimular a renegociação preventiva de dívidas e fortalecer a disciplina do crédito são fatores centrais para preservar o equilíbrio do mercado ao longo de 2026 e manter o crédito como instrumento de desenvolvimento econômico e social.