Fuente: https://movimentoeconomico.com.br/ – Por Mariana Araújo
Apesar da queda mensal, região mantém índices elevados e Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco superam metade da população adulta na inadimplência
Embora tenha registrado a menor alta anual entre todas as regiões brasileiras e uma redução mensal no número de devedores, o Nordeste continua convivendo com um elevado nível de inadimplência. Em junho de 2026, a região apresentou queda de 0,44% no total de consumidores negativados em relação ao mês anterior, desempenho melhor que a média nacional (-0,30%). Os dados são da da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC).
No acumulado de 12 meses, porém, o número de inadimplentes cresceu 3,96%, enquanto estados como Ceará (52,65%), Rio Grande do Norte (51,88%) e Pernambuco (50,20%) já contabilizam mais da metade da população adulta com restrições de crédito.
Os dados integram um cenário nacional em que 50,8% da população adulta está inadimplente e 80,9% das famílias brasileiras possuem algum tipo de endividamento. O levantamento também revela que o problema deixou de ser apenas conjuntural e passou a apresentar características estruturais, impulsionado pelo chamado “efeito ioiô” das dívidas.
Inadimplência: um comportamento recorrente
Segundo o estudo, quatro em cada dez consumidores negativados em 2026 já enfrentavam restrições financeiras há pelo menos uma década. Além disso, cerca de 85% das pessoas que conseguem limpar o nome voltam a registrar inadimplência em até um ano, indicando que a renegociação das dívidas, sozinha, não tem sido suficiente para interromper esse ciclo.
No Nordeste, essa dinâmica se reflete nos elevados índices registrados pelos estados. Além de Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco, aparecem Alagoas (47,54%), Maranhão (46,23%), Sergipe (45,84%), Bahia (45,31%), Paraíba (43,78%) e Piauí (40,82%), mostrando que o endividamento permanece disseminado em toda a região.
Para o presidente executivo da ANBC, Elias Sfeir, os números mostram que o desafio do crédito no Brasil vai muito além da simples renegociação das dívidas.
“A inadimplência de longo prazo mostra que o combate ao endividamento excessivo requer políticas que vão além da renegociação pontual. É necessário combinar educação financeira, uso consciente do crédito e práticas de concessão responsáveis, alinhadas à capacidade de pagamento dos consumidores”, afirma.
Crédito caro alimenta a inadimplência
O levantamento aponta que o crescimento da oferta de crédito nos últimos anos ampliou o acesso dos brasileiros ao sistema financeiro, mas também elevou o uso de modalidades consideradas de alto custo, especialmente o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial.
A combinação entre juros elevados, comprometimento crescente da renda familiar e pouca experiência de parte dos consumidores no uso do crédito contribui para a reincidência da inadimplência, mesmo em um cenário de melhora do mercado de trabalho e redução do desemprego.
Na avaliação da ANBC, o avanço da inclusão financeira ampliou o acesso ao crédito sem que uma parcela significativa da população tivesse recebido orientação suficiente para administrar esse recurso de forma sustentável.
Educação financeira é apontada como principal caminho
Especialistas defendem que romper o chamado “efeito ioiô” exige uma estratégia mais ampla do que programas de renegociação. Entre as medidas consideradas essenciais estão a ampliação da educação financeira, o incentivo ao uso consciente do crédito e critérios mais rigorosos na concessão de financiamentos, respeitando a capacidade de pagamento dos consumidores.
Para Elias Sfeir, o comportamento recorrente da inadimplência demonstra que o problema precisa ser enfrentado de forma estrutural.
“Os dados revelam que a inadimplência deixou de ser apenas uma dificuldade momentânea para uma parcela importante da população e passou a representar um comportamento recorrente. De cada 100 consumidores que deixam a negativação, cerca de 85 voltam a registrar restrições de crédito em até um ano. Isso reforça que programas de renegociação são importantes, mas produzem resultados mais duradouros quando vêm acompanhados de educação financeira, uso consciente do crédito e práticas de concessão responsáveis, alinhadas à capacidade de pagamento dos consumidores”, completa.
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