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Cartão de crédito: usos e evolução no mercado brasileiro

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Os cartões de crédito surgiram nos Estados Unidos na década de 1950, permitindo que consumidores fizessem pagamentos em estabelecimentos credenciados sem portar dinheiro. O lançamento do cartão de crédito bancário no Brasil se deu em 1968 e a inovação introduziu uma forma de pagar considerada mais cômoda e segura e logo espalhou-se pelo mundo. Décadas depois, esse instrumento permanece relevante.

No Brasil, dados do Banco Central mostram que 37 milhões de pessoas passaram a ter acesso a cartões de crédito entre 2020 e 2024. Com isso, o número de brasileiros com acesso a esses instrumentos chegou a 105 milhões. Os dados constam do último Relatório de Cidadania Financeira, divulgado pelo Banco Central em 2026. Embora defasados, eles compõem um quadro importante do perfil de uso dos cartões no Brasil.

Dados mais recentes divulgados pela Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS) mostram que, em 2025, os brasileiros fizeram cerca de 40 mil transações por minuto com os cartões. O volume total transacionado chegou a R$ 3,1 trilhões no último ano, com crescimento de 14,5%

No modelo consolidado no Brasil, os cartões de crédito assumem duas funcionalidades. Na primeira e mais comum, o cartão de crédito serve como meio de pagamento e financiamento de curtíssimo prazo. Essa é a chamada compra “à vista” no cartão, em que o valor integral entra na próxima fatura. A outra forma é a da compra parcelada, em que o valor é dividido em mais de uma fatura, podendo ter a incidência de juros. Nesse caso, o cartão assume a forma de uma modalidade de crédito pré-aprovada.

Os parcelamentos sem juros, oferecidos nos mais diversos estabelecimentos comerciais, são uma especificidade do mercado brasileiro. Ainda segundo o Relatório de Cidadania Financeira, o comprometimento da renda com cartão crédito passou de 38,5%, em 2020, para 54% em 2024. Constata-se que a maior parte desse comprometimento da renda (31%) se refere à modalidade à vista; na modalidade parcelada, o comprometimento chegou a 17%. Estes números apontam um potencial risco de incorporação do crédito no cartão como extensão de renda por uso indevido. Isto pode causar superendividamento e casos que o serviço do crédito exceda 30% da renda real.

Dados do mercado americano sugerem uma diferença importante em relação ao mercado brasileiro: o valor mensal de pagamento de cartões foi estimado em US$ 181 nos Estados Unidos, o equivalente a 2,7% do valor devido. Esse número indica alta rolagem das dívidas com cartão. Para comparação, no Brasil, a referência de mercado para o pagamento mínimo é de 15%.

Em caso de atraso da fatura ou de pagamento de apenas parte do seu valor, desde os anos 1990 o mercado brasileiro adota a prática do rotativo. O crédito rotativo é o financiamento automático do saldo devedor nos casos em que o pagamento é adiado. Embora muito comum, essa prática de mercado só foi regulamentada em 2017. A Resolução 4.549 limitou em 30 dias o período em que o saldo devedor da fatura pode permanecer no rotativo. Depois desse período, caso o cliente permaneça inadimplente, o saldo devedor deve ser parcelado em outra modalidade de crédito.

O objetivo da mudança foi reduzir o risco de que, por inércia, a dívida dos cartões se transforme em uma bola de neve, gerando superendividamento. De acordo com dados do Banco Central, a taxa média de juros do rotativo no segmento de pessoas físicas foi estimada em 432% ao ano. Para comparação, a taxa média de juros considerando todas as modalidades chegou 63%.

O elevado custo da modalidade requer cuidados e consciência na utilização desse instrumento. Uma sondagem conduzida pelo setor birôs e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas revelou que 78% desconhecem a taxa de juros cobrada pelo uso do rotativo. A versatilidade do cartão também requer maior organização. O risco aparece quando o limite do cartão passa a funcionar como extensão da renda, financiando tanto a insuficiência dos gastos no curto prazo quanto o consumo de bens de maior valor. Além disso, consumidores mais propensos a compras impulsivas encontram na facilidade de uso um desafio a mais para conter o impulso.  A sondagem realizada pelo setor dos birôs de crédito também mostrou que 30% dos consumidores negativados nos últimos 12 meses tinham atrasos no cartão de crédito.

Esses fatos reforçam que a inclusão plena vai além do acesso. Os passos regulatórios dados recentemente ajudam a limitar o superendividamento e é preciso promover o uso consciente da modalidade, tornando cada vez mais transparentes os custos de cada escolha.

 

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elias sfeir anbc

 

Por: Elias Sfeir Presidente da ANBC & Membro do Conselho Climático da Cidade de São Paulo & Conselheiro Certificado

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