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Buy now, pay later: mudando a forma e preservando princípios

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“Buy now, pay later”. Nos últimos anos, essa expressão tem aparecido com frequência nas discussões sobre inovação financeira e traduz o próprio conceito do crédito: comprar agora e pagar depois, isto é, antecipar o consumo no tempo. Há diversos produtos financeiros que permitem essa transação intertemporal, como os tradicionais crediários e os cartões de crédito, amplamente conhecidos no mercado brasileiro.

De maneira mais específica, porém, o “buy now, pay later” (BNPL) designa uma nova forma de antecipação de consumo que guarda diferenças importantes com relação aos financiamentos tradicionais e aos cartões de crédito. A expressão em inglês já sugere que o fenômeno vai muito além do mercado brasileiro. Para 2026, estão previstas adequações regulatórias para disciplinar o uso dessa modalidade nos países em que o modelo está mais consolidado.

Na prática, o BNPL é um financiamento de curto prazo em que a análise de crédito é feita no ato da compra. Nesse sentido, a modalidade poderia ser comparada a um crediário, com uma diferença importante: a automatização e a rapidez do processo de aprovação do financiamento. Com a compra aprovada e a forma de pagamento definida – boleto ou PIX, no caso brasileiro –, a automatização também é necessária no fluxo de cobrança do cliente.

Essa opção de pagamento vem ganhando espaço no varejo online, onde os consumidores prezam pela boa experiência de usuário, segurança e comodidade. Como forma de pagamento, o “buy now, pay later” reduz algumas fricções da compra online, tornando dispensável o cadastro de cartões de crédito, que, em alguns casos, pode gerar insegurança. A facilitação dos pagamentos tende aumentar as conversões de vendas do varejo.

Embora o Brasil tenha uma cultura bastante consolidada dos parcelamentos de curto prazo, o BNPL ainda está em fase de amadurecimento no país. Curiosamente, onde a cultura dos parcelamentos é menos presente, essa modalidade está mais consolidada.

De acordo com dados do Global Payment Report, publicado pela Worldpay, o valor movimentado pela modalidade BNPL em 2024 foi de US$ 342 bilhões, o que corresponde a 5% do valor global transacionado no e-commerce. Os dados regionais mostram que a modalidade BNPL representou cerca de 8% do valor transacionado pelo e-commerce na Europa em 2024 e 6% nos Estados Unidos. Na América Latina, os resultados ainda são mais modestos: a modalidade representa cerca de 1% do valor transacionado. O Brasil aparece com o mesmo percentual. No mercado Ásia-Pacífico, o percentual foi de 4%, com destaque para a Austrália (15%).

No mercado americano, dados do Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) divulgados em dezembro de 2025 fornecem uma medida da inadimplência na modalidade: o percentual dos empréstimos considerados inadimplentes recuou de 2,63% em 2022 para 1,83% em 2023.

Esses números levam às considerações sobre os riscos associados ao uso indiscriminado dos parcelamentos. Utilizar a modalidade como forma de ampliar limites pré-aprovados traz consigo o risco do superendividamento. Um ponto de atenção no uso dessa modalidade é a gestão da dívida quando o consumidor recorre a diversos parcelamentos. Uma preocupação do Banco Central sobre o parcelamento do PIX é o acúmulo de dívidas quando somados os gastos parcelados. Em dezembro a diretoria do BC comunicou que pode não haver regulação desta modalidade. Nesse quesito, o cartão de crédito tem a vantagem de consolidar as informações na fatura, facilitando o controle.

Diante desse risco, as principais economias caminham para aprovar uma regulação específica sobre a modalidade. Na União Europeia, onde o BNPL tem evoluído na dimensão cross-border, a atualização da Diretiva de Crédito ao Consumidor (CCD2) deverá incluir regras sobre funcionamento do BNPL, destacando a análise de crédito como requisito da aprovação da operação e a comunicação clara aos consumidores acerca dos riscos e custos envolvidos nessa modalidade. A previsão é de que as novas regras entrem em vigor no 2º semestre de 2026.

O estágio atual dos sistemas de informações de crédito no Brasil favorece o crescimento dessa modalidade, combinando dados positivos e negativos. O setor dos birôs entende que a análise de crédito ágil e bem fundamentada é essencial para o desenvolvimento do BNPL no país. Os dados de BNPL já impactam analise e fraude no ecossistema do crédito trazendo mais assertividade. Nos Estados Unidos, dentre os consumidores com mais de 5 operações de BNPL, 23% abaixaram a nota de crédito e 45% aumentaram a pontuação. No ambiente virtual, onde essa modalidade mais marca presença, a prevenção às fraudes também é requisito fundamental no processo de avaliação.

Mesmo que o crédito assuma novas formas, os princípios gerais continuam valendo. As operações estão sujeitas a riscos que podem comprometer as instituições financeiras, levar ao superendividamento e, no limite, gerar um risco sistêmico. Como nas demais modalidades, a disciplina do crédito também deve ser observada no BNPL, garantindo ao consumidor a conveniência de escolher entre diversas opções de pagamento, sem comprometer a saúde financeira.

 

 

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elias sfeir

 

Por: Elias Sfeir Presidente de ANBC & Miembro del Consejo Climático de la Ciudad de São Paulo & Concejal Certificado

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