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Por Elias Sfeir - Presidente de la Asociación Nacional de Oficinas de Crédito (ANBC)
Todo final de ano é um período natural de reflexão e de tentativa de antecipar o que vem pela frente. A pergunta “o que esperar do próximo ano?” surge em praticamente qualquer conversa, principalmente aquelas que envolvem agentes econômicos que dependem de expectativas para a tomada de decisões. Fazer projeções sobre qualquer assunto de mercado exige um sólido conhecimento do comportamento histórico dos dados, combinado com uma dose inevitável de incerteza. Afinal, eventos imprevisíveis podem alterar completamente qualquer estimativa estritamente técnica. E isso vale para qualquer assunto.
Com isso em mente, e olhando especificamente para o mercado de crédito, o que esperar dos dados de concessão, juros e inadimplência e quais principais incertezas para 2026?
Antes de responder a essa pergunta, vale a pena observar os resultados de 2025 na comparação com as expectativas traçadas no início do ano. Em janeiro, projetava-se um crescimento de 9% para o crédito total, sendo 8,3% para a carteira de recursos livres e 9,7% para a direcionada, segundo a Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas, realizada mensalmente pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). A inadimplência total da carteira livre, por sua vez, era estimada em 4,7%.
E as expectativas se concretizaram? Os dados mais recentes, referentes a outubro de 2025, mostram um cenário atual muito parecido com as expectativas do início do ano, talvez um pouco mais aquecido: o crédito livre avançando 8,8% e o direcionado, 12,2%. Apesar do cenário de taxas de juros elevadas, o mercado de trabalho, ao permanecer aquecido, sustentou a demanda por crédito, mas também gerou efeitos adversos. A inadimplência, uma das variáveis mais relevantes e determinantes para a avaliação do crédito, apresentou comportamento significativamente acima do esperado, atingindo 5,3% em outubro e suscitando preocupações consideráveis. E se considerarmos somente a inadimplência das famílias, o avanço foi ainda mais significativo, passando de 5,2% para 6,7%, o maior valor da série histórica do Banco Central.
E quais variáveis influenciam o crédito e como devem se comportar em 2026?
Sem dúvida, os juros são um dos principais fatores, mas renda, emprego e confiança do também são determinantes para que consumidores assumam novos compromissos financeiros, assim como o nível atual da inadimplência. Para as empresas, somam-se ainda as expectativas de crescimento econômico, o cenário setorial e o comportamento do dólar, entre outros elementos.
Quanto ao cenário esperado para 2026, as projeções apontam para uma taxa básica de juros próxima de 12% a 12,25%, nível semelhante ao observado no início de 2025. Há uma expectativa de início do ciclo de queda já no primeiro trimestre do ano. Com isso, os juros ao consumidor, que haviam subido de 53,1% em janeiro de 2025 para 58,7% em outubro, tendem a recuar com a redução da Selic, retornando gradualmente aos patamares anteriores.
A maior preocupação, no entanto, estará na inadimplência das famílias com recursos livres. Como mencionado, mesmo com o mercado de trabalho favorável, ela avançou de 5,2% para 6,7%. A expectativa para a inadimplência total das famílias (que inclui recursos direcionados) para 2025 gira em torno de 5,1% e mantendo esse nível em 2026. Como os recursos direcionados têm como característica menores níveis de inadimplência, a inadimplência com recursos livres tende a se manter elevada também. E os efeitos de redução dos juros devem demorar a ser sentidos. Outros fatores relevantes a serem considerados incluem o nível de endividamento das famílias e, sobretudo, o grau de comprometimento da renda com o serviço da dívida, que atingiu, em setembro de 2025, o maior patamar da série histórica do Banco Central, de 26,68%, limitando de forma significativa a capacidade de contração de novos empréstimos.
Assim, o cenário projetado para o próximo ano é de crescimento mais moderado do crédito, ao redor de 8%, juros em queda gradual, enquanto a inadimplência se mantém estável. Enquanto não houver a sinalização de queda no risco, os concedentes devem aproveitar para ajustar as carteiras, com mais cautela sobre os novos empréstimos. As estimativas apontam para expansão de 7,4% no crédito livre e de 9,0% no direcionado.
Mas 2026 não é um ano como qualquer outro. Ele distingue-se de períodos anteriores por ser um ano eleitoral, com pleitos para os principais cargos do poder executivo. Mesmo considerando que os mandatários eleitos assumam seus cargos apenas em 2027, as expectativas sobre os resultados das eleições tendem a influenciar de maneira relevante o próprio ano.
Constata-se assim um contexto marcado pela desaceleração do crescimento do crédito, concomitante a uma trajetória de redução das taxas de juros, ao mesmo tempo em que os níveis de inadimplência se mantêm estáveis, caracterizando um processo de ajuste das condições financeiras que, podem ao longo ano, melhorar as condições do crédito para períodos posteriores.
É fato que anos eleitorais frequentemente se caracterizam por maior euforia e expansão econômica. Contudo, essa dinâmica não parece se aplicar ao mercado de crédito, que deve enfrentar ajustes nas concessões, mesmo diante da redução das taxas de juros, uma vez que as limitações impostas pelo nível de inadimplência e endividamento das famílias tendem a restringir um crescimento mais expressivo do crédito.
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